Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A minha vida virada do avesso - crossfitjourney

A minha vida virada do avesso - crossfitjourney

Para onde vai o amor?

Quando duas pessoas que se amam terminam, para onde é que vai o amor? 
Eu sei onde ficaram as tuas coisas... Devolvi-te a camisola com que dormia e tu provavelmente nunca mais a usaste porque cheira a mim. Guardei as fotografias num livro da minha estante e as musicas numa playlist que só ouço quando estou triste ou uma ou outra vez quando o shuffle me surpreende com a nossa música que parece que da murros no estômago. Guardei os teus presentes todos, até os bilhetes de cinema. Sei onde é que está tudo, sei onde estão todas as coisas... Mas então e o amor? Ficou onde? Ficou para quem? Claro que pouco a pouco nos vamos refazendo e daqui a uns tempos tu vais amar outra pessoa e eu também. Mas isso é outro amor. O mesmo amor não acontece duas vezes.
Quando uma pessoa morre, deixa para trás tudo o que lhe pertenceu e cada um escolhe no que acreditar. Uns acreditam no céu, outros no inferno, outros acreditam que a pessoa está simplesmente debaixo da terra e outros não acreditam em absolutamente nada. Mas existe uma opção, existem vários cenários possíveis. No amor não. O amor acaba e deixa de se falar dele. O amor acaba e não há céu, nem inferno, nem falecido nem adormecido. É nada. É tabú. Vira algo do qual não se fala, do qual se foge para não magoar. E passado uns anos vamos-lhe esquecendo o gosto e os traços, como esquecemos aquelas pessoas que conhecemos no campo de férias quando éramos miúdos.
O amor quando separa as pessoas fica a pairar no ar. Ninguém o reclama, ninguém o olha. Fica nos perdidos e achados na vida, que ninguém sabe onde são.
Há quem mate o amor e fique para o ver partir. Há quem o vá matando com mentiras, com descuido, há quem o vá matando a discutir e com silêncio. Há quem o mate, e assim que o amor morrer, larga-lhe da mão e parte.
Mas nós não matámos o nosso, não. Claro que o maltratámos, e muito. Mas regámo-lo tanto, alimentámos amor com amor. E houve um dia em que decidimos que apesar do amor, não podíamos continuar. Entendes? Não foi o fim do amor, não foi depois de já não haver amor, não foi por falta de amor. Foi apesar do amor.
Entao eu dei-te as tuas coisas e guardei as nossas. Tu deste-me as minhas e puseste as nossas no lixo. Escolhemos um lugar para as coisas. Mas e o amor? Guardamo-lo onde? Cá dentro?
Secalhar é isso. Secalhar quando se termina com alguém apesar do amor, o amor fica cá dentro. Arrenda um quarto pequeno no nosso corpo. É um vizinho silencioso que nao nos lembramos que existe até nos cruzarmos com ele no hall de entrada. Quando se termina apesar do amor o amor fica cá dentro. Apesar de custar, apesar de não estar certo, apesar de não fazer sentido. 
Quando duas pessoas terminam o amor fica onde estava. E os pés mudam de direcção e as almofadas também. Mas ele continua lá. À espera que o ressuscitem, ou o matem de vez naquele lugar das coisas incertas das pessoas que quase foram felizes.

 

Para o C. que está sempre no meu coração, num quartinho arrendado. 

Parece impossível mas Sou uma Nuvem

«Cada qual agarra em mim a aparência que mais lhe convém. Há patetas que me julgam engraçadíssimo e outros que choram tédio mal envesgam a minha cara longa de gato pingado. Horrorizo meia dúzia de pessoas com a minha má-criação ao mesmo tempo que fascino outra dúzia com a amenidade de açúcar do meu temperamento. E depois de empolgar três ou quatro tolos com alguns discursos inteligentes, não me importo de exibir um solo de estupidez diante dum auditório de cretinos espertos. Nem me indigno quando aquele barrigudo me pergunta se persisto em ir todas as noites ao Estoril jogar roleta. Em compensação, outro, mais magro, imagina que deposito dinheiro nos bancos. E outro, ainda mais magricelas, prega-me sermões para me tirar da cabeça a ideia do suicídio.
Isto sem me referir aos que não desistem de louvar, na minha pessoa, o músico falhado, o ex-poeta do «Longe», o ex-advogado sem clientes, o tradutor de fitas, o ex-cônsul, o jogador de barra, o homem que mete o dedo no nariz ou o neurasténico dos nervos enrodilhados.
A única divergência entre mim e a nuvem é que o pobre farrapo de vapor de água desliza pelo céu desprendido e alheio à opinião dos olhos dos homens...Mas eu não. Eu colaboro.
Consciente ou inconscientemente, adapto-me às opiniões provisórias dos outros. Entro nas mil comédias do ramerrão diário, sem me enganar nos papéis ou confundir personalidades.
Graças ao meu profundo talento de Proteu, nunca os palermas que me julgam tímido, assistiram a um rasgo de revolta da minha parte. Nem os que me consideram abaixo da craveira normal puderam arrepender-se do seu juízo a respeito da minha imbecilidade. 
Sou sempre o que eles querem: bom, mau, epiléptico, rude, cínico, amargo, bêbado, terno, violento, filosofo, íntegro, puritano, devasso, pianista, sonâmbulo, tudo.

Só nunca fui uma coisa: Eu próprio..»

[O mundo dos outros - José Gomes Ferreira, (1950)]

405529_261308900603909_221837241217742_582376_1185

Pág. 3/3