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A minha vida virada do avesso - crossfitjourney

A minha vida virada do avesso - crossfitjourney

Para onde vai o amor?

Quando duas pessoas que se amam terminam, para onde é que vai o amor? 
Eu sei onde ficaram as tuas coisas... Devolvi-te a camisola com que dormia e tu provavelmente nunca mais a usaste porque cheira a mim. Guardei as fotografias num livro da minha estante e as musicas numa playlist que só ouço quando estou triste ou uma ou outra vez quando o shuffle me surpreende com a nossa música que parece que da murros no estômago. Guardei os teus presentes todos, até os bilhetes de cinema. Sei onde é que está tudo, sei onde estão todas as coisas... Mas então e o amor? Ficou onde? Ficou para quem? Claro que pouco a pouco nos vamos refazendo e daqui a uns tempos tu vais amar outra pessoa e eu também. Mas isso é outro amor. O mesmo amor não acontece duas vezes.
Quando uma pessoa morre, deixa para trás tudo o que lhe pertenceu e cada um escolhe no que acreditar. Uns acreditam no céu, outros no inferno, outros acreditam que a pessoa está simplesmente debaixo da terra e outros não acreditam em absolutamente nada. Mas existe uma opção, existem vários cenários possíveis. No amor não. O amor acaba e deixa de se falar dele. O amor acaba e não há céu, nem inferno, nem falecido nem adormecido. É nada. É tabú. Vira algo do qual não se fala, do qual se foge para não magoar. E passado uns anos vamos-lhe esquecendo o gosto e os traços, como esquecemos aquelas pessoas que conhecemos no campo de férias quando éramos miúdos.
O amor quando separa as pessoas fica a pairar no ar. Ninguém o reclama, ninguém o olha. Fica nos perdidos e achados na vida, que ninguém sabe onde são.
Há quem mate o amor e fique para o ver partir. Há quem o vá matando com mentiras, com descuido, há quem o vá matando a discutir e com silêncio. Há quem o mate, e assim que o amor morrer, larga-lhe da mão e parte.
Mas nós não matámos o nosso, não. Claro que o maltratámos, e muito. Mas regámo-lo tanto, alimentámos amor com amor. E houve um dia em que decidimos que apesar do amor, não podíamos continuar. Entendes? Não foi o fim do amor, não foi depois de já não haver amor, não foi por falta de amor. Foi apesar do amor.
Entao eu dei-te as tuas coisas e guardei as nossas. Tu deste-me as minhas e puseste as nossas no lixo. Escolhemos um lugar para as coisas. Mas e o amor? Guardamo-lo onde? Cá dentro?
Secalhar é isso. Secalhar quando se termina com alguém apesar do amor, o amor fica cá dentro. Arrenda um quarto pequeno no nosso corpo. É um vizinho silencioso que nao nos lembramos que existe até nos cruzarmos com ele no hall de entrada. Quando se termina apesar do amor o amor fica cá dentro. Apesar de custar, apesar de não estar certo, apesar de não fazer sentido. 
Quando duas pessoas terminam o amor fica onde estava. E os pés mudam de direcção e as almofadas também. Mas ele continua lá. À espera que o ressuscitem, ou o matem de vez naquele lugar das coisas incertas das pessoas que quase foram felizes.

 

Para o C. que está sempre no meu coração, num quartinho arrendado. 

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